Entre rios e florestas: aprendizados do SulxSouth no Acre

“No começo pensei que estivesse lutando para salvar seringueiras, depois pensei que estava lutando para salvar a Floresta Amazônica. Agora, percebo que estou lutando pela humanidade” – Chico Mendes. 

Texto: Glaucia Rodrigues
Imagens: Victor Ian

Entre os dias 15 e 18 de junho de 2026, nós, Glaucia Rodrigues e Valéria Silva, do Instituto Procomum e Rafis Martins, do Instituto Sapiência – membros da Rede SulxSouth, articulação coletiva que busca unir, fortalecer e amplificar as vozes do Sul Global no enfrentamento das injustiças ambientais – viajamos até o norte do Brasil para encontrar os irmãos e irmãs da Aliança dos Povos pelo Clima e participar do “Encontro de Artivismo dos Povos da Floresta”.

Reencontrar tantas pessoas comprometidas com a defesa dos territórios, das culturas e dos modos de vida dos povos da floresta é sempre algo transformador para o que entendemos como luta. O reencontro reorganiza o olhar e amplia o sentido do trabalho que fazemos em rede.

Estávamos reunidos na sede da Comissão Pró-Indígena (CPI), um espaço muito bonito, carregado de história e significado. O local, que já foi uma fazenda, hoje é uma área reflorestada e dedicada ao fortalecimento dos povos indígenas e comunidades tradicionais. É um território que ensina sobre caminhos possíveis de reparação e continuidade da vida, colocando na mesma mesa de discussão desafios enfrentados pelas periferias urbanas e os povos da floresta, para que através da arte, da cultura e da comunicação, fosse possível pensar em incidência política no contexto das eleições de 2026.

O evento reuniu cerca de 65 participantes, majoritariamente vindos de estados da região norte. Muitas pessoas viajaram por dois ou até três dias de barco para chegar até o local; em diversas aldeias e comunidades quilombolas, o principal meio de transporte ainda é fluvial. Essa informação dimensiona o esforço, a logística e, sobretudo, a importância política deste encontro.

A Aliança dos Povos pelo Clima

A Aliança dos Povos pelo Clima é uma articulação que reúne lideranças indígenas, quilombolas, extrativistas, ribeirinhas, beiradeiras e juventudes urbanas em torno de um novo pacto coletivo pela justiça climática.

Herdeira da histórica Aliança dos Povos da Floresta, criada nos anos 1980 por Chico Mendes, Raoni Metuktire, Ailton Krenak e outras lideranças, a nova Aliança amplia esse legado diante da emergência climática global, propondo caminhos concretos para um futuro sustentável, diverso e plural.

Participamos de dinâmicas em que nos dividimos por territórios e compartilhamos histórias sobre os rios que atravessam nossas vidas. Nós, que somos do sudeste, falamos do Tietê, e  também ouvimos relatos sobre o Tapajós, o Acre, o Xingu e outros corpos d’água. Foi um momento potente para perceber como os rios conectam memórias, identidades e formas de viver, mesmo em contextos tão distintos e atravessados por diferentes realidades.

A fala de abertura foi sobre a Aliança dos Povos da Floresta: Memória, Luta e Continuidade. Representantes do Conselho Nacional dos Seringueiros (CNS) compartilharam a história da construção dessa articulação, relembrando momentos marcantes, como a criação do Comitê Chico Mendes na noite de seu assassinato, além da atuação de lideranças fundamentais para a defesa da floresta e dos povos que nela vivem.

Angélica Mendes, bióloga, ativista e neta de Chico Mendes, contou que há grande ofensiva contra a imagem do avô e por isso, as pessoas mais jovens, inclusive a juventude acreana, não o conhecem tão bem. Chico Mendes foi um seringueiro, líder sindical e defensor incansável da Amazônia, que transformou a luta pela floresta em uma luta pela vida. Ao lado de seringueiros, povos da floresta e comunidades tradicionais, construiu uma poderosa articulação em defesa dos territórios, dos modos de vida e da justiça social. Seu legado permanece vivo como inspiração para quem acredita que proteger a floresta é também proteger as pessoas.

Encontro reuniu ativistas, populações tradicionais e organizações para construção de uma campanha para as eleições de 2026 /Crédito: Victor Ian

A história do seringueiro foi eternizada no cinema, nos livros e na memória de quem conviveu com ele, como Julia Feitosa, que estava presente no evento e tem uma longa trajetória nos movimentos de direitos humanos, movimento negro e ambientalismo, além de ter participado  diretamente do 1º Encontro Nacional de Seringueiros em Brasília, evento histórico coordenado por Chico Mendes e Ailton Krenak que serviu de incubadora para a articulação da Aliança dos Povos da Floresta em 1987. Mesmo depois de ter percorrido esse longo caminho, ela afirma que a luta continua e que sonha em ter um Ministério dos Povos da Floresta.

Ao longo das conversas, chamou atenção a clareza com que trabalhadores da floresta, povos indígenas e comunidades quilombolas compreendem a conexão entre suas lutas. A defesa dos direitos, dos territórios e da floresta aparece como uma pauta inseparável, uma compreensão construída na prática, na vivência cotidiana e na urgência da sobrevivência.

Concluímos os três dias de construção da campanha com um propósito muito claro: fazer com que a informação sobre o processo eleitoral, os candidatos e as articulações políticas alcance os territórios onde ela tantas vezes não chega. Embora as urnas estejam presentes em algumas comunidades indígenas, o acesso à informação ainda é desigual. Pescadores, beiradeiros e quilombolas, em muitos casos, sequer recebem a urna em seus territórios e precisam percorrer quilômetros para exercer um direito que deveria ser garantido a todas as pessoas.

As campanhas construídas durante esses dias seguirão caminhos diferentes pelos territórios da região norte. Nós, que viemos do sudeste (Institutos Lamparina, Sapiência, Amazônia de Pé e Procomum)  voltamos com a responsabilidade de reverberar e fortalecer tudo o que aprendemos e construímos coletivamente. Para mim, essa experiência foi uma verdadeira aula sobre mobilização, criatividade e artivismo dentro e fora das redes sociais. Saio do Acre com a certeza de que transformar realidades não depende apenas da internet: a força do encontro, da escuta e da organização comunitária continua sendo uma das tecnologias mais potentes para promover mudanças.

Os encontros aconteceram em contato com a natureza, com pausas para descansar e para conhecer o território vivo da floresta amazônica / Crédito: Victor Ian

SulxSouth em Xapuri

No dia 19, seguimos para Xapuri, terra de Chico Mendes, para participar do planejamento da Aliança dos Povos pelo Clima, um espaço dedicado ao fortalecimento de articulações e construção de estratégias.

A rede SulxSouth é atravessada por uma enorme diversidade de expertises, colocadas a serviço do apoio mútuo. Neste caso, o Instituto Procomum, membro e articulador da rede, levou na bagagem o que vem desenvolvendo, estudando e acumulando sobre metodologias de cuidado, com a intenção de colocá-las a serviço da Aliança.

O caminho de Rio Branco até Xapuri leva cerca de três horas. Angélica Mendes já havia nos alertado que o transporte poderia ser desafiador, e por isso optamos por alugar um carro. Ainda assim, ao chegarmos, percebemos que o percurso até o local do encontro seria mais exigente do que imaginávamos: cerca de 30 minutos de estrada de terra até a Reserva Extrativista Chico Mendes. Angélica nos acompanhou, e tivemos o privilégio de ouvir parte da história do Brasil pela lente da neta de um dos nossos mais importantes líderes.

Além de estarmos na RESEX, em plena floresta amazônica, tivemos o enorme privilégio de conhecer Raimundão, seringueiro, ambientalista e histórico líder extrativista brasileiro. Primo e companheiro de luta de Chico Mendes, ele nos contou o que pôde ao longo das 48 horas em que estivemos juntos: falou sobre a importância da floresta, da permanência e da luta pacífica. Nos apresentou sua família e nos mostrou, com muita clareza, o quão complexo e, muitas vezes, violento pode ser o sistema econômico em que vivemos.

Caminhamos pelos seringais, vimos a árvore Samaúma e uma quantidade imensa de formas de vida humanas e não humanas, pelas quais seguimos entendendo que precisamos lutar todos os dias.

Tenda dos Cuidados

Durante o encontro em Rio Branco, a Procomum montou uma Tenda dos Cuidados, ao lado do psicólogo Rodrigo Paiva e do Pajé Txane. Montamos a estrutura em uma espécie de oca artística cercada por esculturas de madeira. Mesmo com poucos recursos, conseguimos criar um ambiente acolhedor e seguro.

A procura foi intensa ao longo do dia. Recebemos pessoas com pressão alta, cólicas, intoxicação alimentar, inflamações musculares e também participantes que buscavam acolhimento emocional diante de sentimentos de tristeza e outros gatilhos mobilizados pelas vivências compartilhadas. A movimentação confirmou a importância de garantir espaços de cuidado em encontros como este.

Procomum levou a expertise do SulxSouth e da Tenda dos Cuidados para o encontro.

150 150 Ceci Garcia
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