Estou com sorte 😉

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Aproximações

Escutar outras mulheres abre mundos dentro de mim. A minha escuta passa pelo olhar, por representar. O desejo de registrar o encontro, a ação deliberada dos olhos e mão (que constroem imagens) são o modo que eu encontro -meu melhor modo- de abrir espaço em mim, de me permitir ser atravessada por outras experiências, rasgar-me para descobrir como estar juntas, ser juntas.

Eu sou feita de vazios, faltas e ausências; ouví-las é me encontrar com esses vazios, é reconhecer e assimilar a falta que há em mim.

Eu me reconheço na semelhança e na diferença, na potência de desejo, sonho, vida e inquietude que percebo em cada uma delas enquanto desenho. Me encanto com as narrativas, as lutas, a honestidade, o controle, a entrega… as oscilações pulsantes nos corpos que se propõem a colaborar, que tentam abrir-se sem perder os contornos.

Os contornos se tornaram ainda mais difusos pelo intermédio das telas. Em olhares que nunca se cruzam sinto, de forma brutal, a falta de volume dos corpos, do espaço entre nós; me incomoda o ar que não circula. Diante da tela me esforço por enxergar, por me aproximar, por tornar real, talvez concreto, esse encontro. Eu escuto voz, vejo luz e busco carne e experiência.

Bakhtin trata da impossibilidade de criar uma imagem externa própria, ver-nos como vemos a outra. O conhecimento ético e estético de si só é possível diante da reação do outro em frente de nós; entre a “autosensação interna” e a “imagem externa de si” cria-se uma tela transparente. É através dela, da “alma” do outro, que “eu vivifico e incorporo a minha imagem externa ao mundo plástico pictural” (Bakhtin, Mikhail. “Estética da criação verbal”, p.30). A partir dele penso que o reconhecimento de mim no mundo, minha localização nele depende delas, da interação, das reações das outras.

Há anos trabalho com autorretrato, certa da impossibilidade de representar-me e preenchida pela busca: olhando pra mim busco outras. E é essa composição de olhares que me dá concretude. O retrato, a escuta e o desenho de outras mulheres me localiza no mundo e me permite estar, realmente, presente. Não me busco nelas mas, diante delas, encontro uma escuta e presença em mim que me permitem ser, ser e pertencer.

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