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Um laboratório para evidenciar o protagonismo negro na Baixada Santista

Vanguarda abolicionista no passado, Santos tornou-se uma das cidades de maior segregação racial do país; Novo projeto do LAB Procomum pretende confrontar o apagamento histórico e produzir tecnologias, obras de arte e narrativas baseadas na memória viva da população negra da região

A cidade de Santos já foi conhecida como terra da liberdade. Parte da historiografia reconhece-a como a primeira cidade a ter antecipado o fim da escravidão, dois anos antes em relação ao restante do país. Santos também foi uma terra de resistência negra, onde foram organizados inúmeros quilombos: o do Jabaquara, segundo maior do Brasil, depois de Palmares; o do Pai Felipe, o rei batuqueiro; e do Garrafão, na Ponta da Praia – considerados marcos na luta contra a escravidão no Brasil.

Essas e muitas outras histórias são desconhecidas da maioria dos habitantes de nosso país. E esse apagamento tem consequências culturais, econômicas, sociais e éticas. Uma pesquisa divulgada pelo jornal Nexo, em 2015, aponta Santos como a terceira cidade mais segregada racialmente do Brasil. Ou seja, na antiga terra da liberdade, negros e brancos nem sequer circulam pelos mesmos espaços. Líder em muitos rankings de qualidade de vida, a cidade acumula uma evidente dívida com sua população afrodescendente.

 

É justamente para pensar criticamente a exclusão e apagamento racial que o Instituto Procomum lança o projeto LAB Procomum: Memórias, Narrativas e Tecnologias negras da Baixada Santista.

 

O projeto é uma pesquisa-ação que utilizará as metodologias desenvolvidas pelo laboratório cidadão LAB Procomum para evidenciar o protagonismo ancestral e contemporâneo da população negra da região, não apenas na cidade de Santos. Importante lembrar que a Baixada Santista é a sub-região com maior proporção de negras e negros do estado de São Paulo. Cidades como Cubatão e Guarujá tem maioria de população negra.

“A ideia é utilizar a arte, a cultura e a inovação para fortalecer e qualificar ações que já ocorrem neste território, a partir de quatro eixos: formação, por meio de círculos temáticos; desenvolvimento de protótipos e experimentações, mapeamento da produção negra e residências artísticas”, explica Marina Pereira, coordenadora do LAB Procomum.

 

Inquietação e inteligência coletiva 

Desde sua fundação, o IP tem como eixo transversal de atuação o compromisso com as populações sub-representadas e a busca por um olhar interseccional contra a desigualdade. “Esse projeto nos permitirá realizar um antigo sonho. Utilizando nossa metodologia que busca construir um mundo comum entre diferentes, queremos afirmar a contribuição negra  para o conjunto da sociedade, sem o que jamais chegaremos a ter um país justo e livre”, defende Rodrigo Savazoni, Diretor-Executivo do Instituto Procomum.

Marina, produtora cultural e ativista do movimento negro, integrou-se à equipe do Procomum em 2016 e trouxe consigo suas inquietações sobre o apagamento da contribuição negra para a história da região.

Em 2018, o LAB Procomum passou a fomentar o surgimento de comunidades de prática, organizadas em torno de Grupos de Trabalho temáticos. Foi então que ela articulou um grupo de mulheres negras para fundar o Coletivo Acotirenes, que passou a agenciar o G.T de Memória e Negritude do LAB. O trabalho evoluiu, ganhou corpo, e foi contemplado com um edital do governo do Estado de São Paulo. Com esse prêmio, puderam iniciar uma pesquisa em torno da temática do apagamento, tendo como foco a religiosidade de matriz africana, em diálogo também com o Instituto Afroketu, do Guarujá.

“Para nós, essa é uma pesquisa-ação permanente, que começou desde que fundamos o Instituto, e que seguirá para além do projeto. Esperamos que dure o tempo necessário para que possamos mudar essa lógica”, defende. “Queremos a construção de um horizonte comum, e o grande salto agora é que estamos reunindo uma inteligência coletiva para produzir respostas diferentes de acordo com as trajetórias, saberes e histórias de cada grupo, pessoa ou organização que vai participar do projeto”, diz Marina.

No ano passado, em contato com o Instituto Ibirapitanga, que tem como um de seus eixos principais de atuação o fortalecimento da população negra, foi desenvolvido o projeto LAB Procomum: Memória, Narrativas e Tecnologias negras da Baixada Santista.

“O projeto também nos oferece a possibilidade de começar a redesenhar e inventar essa memória”, avalia Marina. “Não queremos falar da história e memória negra apenas na exclusão e desigualdade social. Ela é uma realidade, e precisa ser repudiada. Mas queremos atuar no lugar da potência, beleza e imaginação que já existe no território e construir um novo futuro ”.

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