Estou com sorte 😉

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Capítulo 3 – Mar, língua e pajubá

por Gustavo Pereira, GT Imagem e Memória

A masculinidade negra que aporta

Para Robert W. Connell (2000; 1997), existe um cumprimento de gênero da qual existem masculinidades hegemônicas (onde ser branco, heterossexual, rico e ocidental são suas marcas mais visíveis) que estão sobrepostas a masculinidades marginalizadas ou subordinadas (aquelas masculinidades identificáveis entre pretas, pobres, periféricas, não-brancas).

Desse ponto de vista, a representação, como o trabalho de imobilizar o sentido em tipos pretendidos como imagens, participa das formas da reprodução social dos significados e das práticas.

A figura do “menino bonito”

Na Antiguidade, o amor entre iguais era uma das tônicas gregas. Nos banquetes filosóficos, celebravam-se pelo conhecimento, pelo belo, pelo bem e pela irmandade.

O kouros (“jovem”, em grego), representado em estátua de mármore datada de 590–580 a.C., tem ares femininos e masculinos. Recém saído da puberdade, seus músculos estão em formação, sua cintura é fina e seu rosto, andrógeno. Como na performance atual de Thiago Pethit no clipe de “Orfeu”, não há barba, o corpo é magro e os cabelos longos. Ao ritmo da androginia da Tropicália brasileira, Gilberto Gil em 1979 compôs a música “Logunedé”, onde homenageia a entidade do candomblé que é guerreiro. Ele busca o alimento com coragem para sua aldeia, conhecedor de muitos feitiços. Vive seis meses na mata caçando com seu pai, Oxóssi, e seis meses no rio pescando com Oxum.

Cada sujeito, mais conformado ou não aos rótulos que a ele são atribuídos, deverá buscar a máscara que melhor molde o seu rosto, o seu corpo e o seu desejo.

Na contemporaneidade, temos a consciência de que não existe uma só homossexualidade, como o psicanalista brasileiro Jurandir Freire Costa vem defendendo a ideia universalista de uma homossexualidade e outras dissidências. Assim como não há uma só masculinidade ou uma só feminilidade, as questões de gênero e sexualidade passam pela construção intersubjetiva de estilísticas, formas de existir e performar, através da linguagem, da estética e da vivência de cada ser.

Os dados acima só nos fazem notar e verificar que há algo que não se sustenta há muito tempo no ar. Assim como Ícaro na Grécia antiga, em nossa nação: o mito da democracia racial.

Movimentos sociais como os movimentos feminista, negro, gay e lésbico deram visibilidade a uma série de questões relacionadas a estes grupos e contribuíram sobremaneira com novos comportamentos frente à vida. Produzindo novos contornos , ou borrando, nas relação entre homens e mulheres no que se refere ao exercício da sexualidade, à compreensão do casamento, à família, aos possíveis arranjos de parcerias afetivas e ao mundo do trabalho.

Acordando de um pesadelo colonial e a farsa da democracia racial 

Talvez um dos mitos a cair vertiginosamente em nossa sociedade seja o da “democracia racial”. Ademais, não é possível defender a democracia racial em um país com mais de 70% da população carcerária de negros; com a maioria de trabalhadores informais, sem oportunidades, também negros; com o aumento drástico de casos de feminicídios no país nos últimos anos, sendo que a diferença entre os homicídios de mulheres negras para brancas é de 71%, segundo estudo publicado pelo Geledés – Instituto da Mulher Negra.

Um exemplo é o samba-enredo da 2019 de Estação Primeira de Mangueira, vencedora do carnaval de 2019, e trouxe nos destaques nomes invisibilizados dos livros didáticos.

O samba enredo da Estação Primeira de Mangueira propôs mostrar a outra versão da História do Brasil, uma história que nunca antes fora contada com uma concisão ímpar. A população brasileira, proveniente de uma mistura de raças, primeiramente indígenas, branco e negro, consegue compreender e sensibilizar-se com a ideia proposta pela letra do samba-enredo. A história contada unicamente por um nicho populacional, torna as outras raças formadoras da nação brasileiras, excluídas do processo de construção da mesma. Em cada verso da música, ícones atuais que lutam em prol do respeito e da erradicação da discriminação racial, são mencionados e seus feitos, finalmente, reconhecidos. Substitui os heróis caucasianos oriundos da Europa por indigenas e negros oriundos do Brasil. Por meio de metáforas, analogias e técnicas argumentativas, promove “a história que a História não contou” (contida na letra).

Sendo assim segundo FOCAULT (1981) afirma que “o discurso é uma representação culturalmente construída pela realidade, não uma cópia exata. Então, o discurso define o sujeito, moldando e posicionando quem ele é, e o que ele é capaz de fazer, o poder circula pela sociedade e, ao mesmo tempo hierarquizado, é possível examinar regimes de poder através da desconstrução histórica de sistemas ou regimes como geradores de opiniões, significados e discursos. Isso faz com que possamos ver, como e por que algumas categorias do pensamento e linhas de argumentação se tornam geralmente verdades enquanto outras maneiras de pensar, ser e agir são marginalizadas”.

Pajubá ferramenta ancestral de corpos negros e LGBTQIA+ vivos  

O movimento homossexual, como era chamado na época, tem seu surgimento registrado pela literatura brasileira no final dos anos 1970. Nesse período, que corresponde ao contexto da “abertura”, concentrado principalmente no eixo Rio de Janeiro-São Paulo, grande parte das principais demandas levadas ao espaço público pelo movimento LGBTQIA +  já se encontram delineadas. Durante os anos 80, apesar da redução expressiva da quantidade de grupos e das dificuldades trazidas pela associação entre Aids e homossexualidade, há mudanças significativas que influenciam o movimento contemporâneo: a atuação passa a ser vista de modo mais pragmático, voltada para a garantia dos direitos civis e contra a discriminação e violência dirigidas aos homossexuais

“Como o desejo, a língua rebenta, se recusa a estar contida dentro de fronteiras. Fala a si mesma contra a nossa vontade, em palavras e pensamentos que invadem e até violam os espaços mais privados da mente e do corpo”.

“Como o desejo, a língua rebenta, se recusa a estar contida dentro de fronteiras. Fala a si mesma contra a nossa vontade, em palavras e pensamentos que invadem e até violam os espaços mais privados da mente e do corpo. Foi no primeiro ano de faculdade que li um poema de Adrienne Rich chamado “The Burning of Paper Instead of Children” (Queimar papel em vez de crianças). Esse poema, falando contra a dominação, o racismo e a opressão de classe, procura ilustrar de modo claro que pôr fim à perseguição politica e à tortura de seres vivos é uma questão mais vital que a censura, que queimar livros. Um verso desse poema que comoveu e perturbou algo dentro de mim:  “Essa é a língua do opressor, mas preciso dela para falar com você”.

No Brasil, o idioma iorubá se manteve presente pela tradição das rezas, cantigas, rituais e saudações usadas no Candomblé.

Pode-se dizer que foi a “abertura de portas” para o ingresso de pessoas não heterosexuais dedicando-se a uma crença religiosa, sem que fossem discriminados ou tivessem de abdicar de sua orientação sexual em prol de um dogma religioso.

O pajubá no idioma iorubá, pode também ser denominado nagô, sendo ele o mais falado nos templos de religiões de matriz africana do país.

Na maioria, as palavras são usadas no falar LGBTQIA +, numa forma de, como no candomblé, evitar que pessoas de fora entendam conversas íntimas, sendo a língua neste caso, usada como uma espécie de código de resistência.

Na performance atual de Thiago Pethit no clipe de “Orfeu” Em Mal dos Trópicos, o cantor reaviva a persona homossexual clássica nascida na Grécia antiga e que, inicialmente, esteve relacionada à erudição, às artes e à androginia.

A imagem de pessoas negras atreladas a pessoas preguiçosas, violentas ou criminosas ronda o imaginário comum e popular. Por meio de filmes, novelas e programas de tv. É neste cenário que setores reacionários avançam e se proliferam como um vírus que destrói a possibilidade de diálogo. Esse vírus se nutre de desinformação e notícias falsas, que no Brasil, por alguma razão, achamos que pode ser melhor compreendida pela sociedade se for chamada de fake News.

Passava-se isso dia-a-dia, mês a mês, ano a ano, geração a geração, moldando-se um comportamento. Nos últimos livros que você leu, quantos personagens eram descritos como negros? Quantas dessas autoras ou autores dedicaram suas palavras a descrever uma pessoa de pele escura, retinta? Com narizes largos e cabelos altos e crespos?

Maria Carolina de Jesus, Conceição Evaristo, Maria Firmina, Dandara, Adélia Sampaio, Camila de Moraes, Day Rodrigues ….

Desses livros, quantos foram escritos por mulheres? E dos filmes, quantos foram dirigidos por mulheres pretas?

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