CTRL + Z: Um passo para trás e você já não está no mesmo lugar

Na sexta-feira, 10/4, aconteceu o lançamento da CTRL + Z, uma organização que articula instituições e pessoas para enfrentar as big techs no Brasil. A ideia é investigar e expor abusos, mover ações judiciais estratégicas e mobilizar pessoas – transformando indignação em ação organizada e efetiva pela responsabilização das gigantes de tecnologia, e pela transformação do setor de tecnologia visando o bem-estar coletivo. A organização lançada a partir do apoio institucional do Procomum.

“Precisamos fazer com que as empresas de tecnologia tenham medo das pessoas, não que as pessoas tenham medo das empresas de tecnologia”, Dani Silva, uma das fundadoras do CTRL + Z.

 

O nome da organização remete à ideia de desfazer e dar um passo para trás no avança da tecnologia, especialmente da Internet, que foi privatizada e tomada pelas big techs.

Vale sempre lembrar que a Internet nasceu a partir de tecnologias livres: os protocolos (HTTP, IP, DNS, HTML), que foram disponibilizados livremente e garante a infraestrutura da rede; os softwares e servidores(Linux, Apache, Sendmail), que fazem a Internet funcionar e são a base operacional da rede; as linguagem de código aberto (PHP, Python, Perl, MySQL), que permitem a criação de sites, apps e interatividade com os usuários.

Todas essas tecnologias foram criadas, disponibilizadas e são mantidas por comunidades e pessoas que decidiram que essas tecnologias devem ser livres e colaborativas. Elas e outras ferramentas que estimulam a troca de conhecimento – como a Wikipedia e o o Internet Archive – nós damos o nome de comuns digitais. As big techs se apropriam delas para criar sistemas e lucram muito com isso. E o pior, causam prejuízos para a vida das pessoas e a democracia ao redor mundo.

O CTRL + Z quer dar um passo atrás nisso tudo.

Suspender uma tarefa

Aqui na Procomum, além de defender e fomentar  comuns digitais, acreditamos  neles como ferramenta de atualização e aprendizagem para a participação cidadã. Entendemos que as ferramentas digitais colaborativas podem servir de inspiração metodológica para processos mais participativos e soluções descentralizadas de problemas, por exemplo.

E quando falamos em comuns digitais, acreditamos ser importante conhecer um pouco a história da computação que remete a um período de muita inovação, criatividade e resolução de problemas. Com o crescimento da Internet e o avanço da era digital às vezes fica um pouco complicado entender alguns conceitos, mas na verdade a lógica computacional é a mesma, o que mudou é a escala. Então, entender as bases da computação nos ajuda a pensar soluções para os problemas complexos que vivemos.

Quando pesquisamos a história do comando Ctrl + z, percebemos que ele é uma metáfora profunda sobre retomada de controle, tanto no nível técnico quanto no político. Ele tem duas funções diferentes: a primeira delas foi criada no mundo dos terminais Unix e Linux, onde tem uma função específica e poderosa: suspender temporariamente o processo que está rodando em primeiro plano. Pressioná-lo é como apertar o botão em um programa em execução.

O sistema operacional Unix foi desenvolvido nos laboratórios da Bell Labs na década de 1970. A criação do Unix por Ken Thompson, Dennis Ritchie e outros visionários  e estabeleceu as bases para a maioria dos conceitos que usamos até hoje.

Por trás do atalho, há um mecanismo sofisticado de comunicação entre processos chamado sinais (signals). Quando você pressiona Ctrl+z, o terminal envia um sinal específico chamado SIGTSTP (Signal – Terminal Stop) para o processo em execução. Ele instrui o sistema operacional a pausar aquele processo imediatamente.
O processo fica em um estado suspenso (stopped), mas ainda presente na memória. O controle do terminal é devolvido ao shell, que fica livre para executar outros comandos.

Na época, os computadores eram compartilhados por mais de uma pessoa e a pouca memória, o que impedia a execução de mais de uma tarefa ao mesmo tempo. Com sua implementação, foi possível pausar uma tarefa e recomeçá-la exatamente onde havia parado.

Assim, em analogia ao nascimento da organização, a primeira funcionalidade do Ctrl+z nos mostra que é possível: suspender a extração predatória de dados pois as big techs operam num fluxo contínuo de coleta, análise e monetização de informações pessoais; suspender a automatização, afinal,  algoritmos de recomendação e moderação de conteúdo muitas vezes rodam sem supervisão humana, causando danos em escala; e devolver o controle à sociedade,  a ideia é que a sociedade recupere a soberania sobre seu ambiente digital, em vez de ser refém das decisões unilaterais de algumas empresas.

Desfazer uma ação

A segunda funcionalidade do atalho é a mais conhecida e popular. Está presente em quase todos editores de texto e softwares gráficos modernos. Trata-se do comando universal de desfazer algo (undo). Ele resolve um problema computacional ainda mais antigo e fundamental:  um erro de digitação em um editor de texto podia ser desastroso.

Imagine que, antigamente, trabalhar em um documento importante e apagar um parágrafo ou algumas linhas de código sem querer poderia ser  um dano irreversível. A possibilidade da função Undo transformou a relação do usuário com o computador pois agora ele podia tentar, errar, desfazer e tentar de novo.

E sua principal revolução veio justamente das comunidades de software livre, especialmente nos editores de texto puros como o Vim e o Emacs , muito utilizados por programadores. Nestes ambientes de criação colaborativa, foi criada um avanço da função chamada  Undo Tree que permite navegar por um histórico de ações que é não linear e desfazê-las.

Voltando de novo à analogia ao trabalho da organização, é possível:n desfazer a concentração de poder, as big techs acumularam poder de mercado, econômico e informacional ao longo de duas décadas é importante para reverter fusões abusivas, práticas anticompetitivas e a captura da atenção; reverter danos à democracia, é urgente atacar a desinformação eleitoral, discurso de ódio algorítmico e forçar as plataformas a implementar mecanismos de correção e reparação; restaurar a privacidade significaria devolver aos indivíduos o direito de apagar seus rastros digitais de forma efetiva.

Devolver o controle

O CTRL + Z nasce portanto desta ideia  de ampliar a funcionalidade do comando para a esfera política e econômica, devolver agência à sociedade frente a corporações.

Para acompanhar o trabalho da organização, acesse o site e inscreva-se na newsletter.

 

1366 768 victor
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