Berlim, 15 de maio. Meia temporada na Europa. Eu, Victor Marinho, gerente de inovação da Procomum, entro na sala Miriam Makeba do Berlin Global Village para apresentar meu trabalho e nossas metodologias do IP na GIG Week 2026 para mais de 80 pessoas de mais de duas dezenas de países. Uma certeza: a inovação de cima para baixo ainda faz sentido
Foto em destaque por Jason Krüger
A Global Innovation Gathering (GIG) não nasceu em Berlim por acaso, mas também não nasceu alemã. Foi durante o festival re:publica em 2013 que uma série de pessoas fundaram esta rede que também está entrelaçada com a história da Procomum. Não só porque a nossa diretora executiva, Georgia Nicolau, é uma das fundadoras, mas porque acreditamos nas possibilidades do local versus global e que tecnologia sem participação popular pode virar desserviço.

Oficina de inovação cidadã durante o encontro da GIG Week contou com participantes de Portugal, Peru, Tanzânia, Kosovo, Espanha, Alemanhã, Inglaterra e Índia
E por mais que as tecnologias escalem e atravessem cada vez mais nossas vidas, muitas vezes de uma maneira não tão bacana. O que fazemos ainda faz sentido, para muita gente. Se mostra cada vez mais necessário.
A GIG hoje é uma comunidade vibrante. São mais de 250 membros, de 80 países. São hubs de inovação, makerspaces, hackerspaces, mas também indivíduos – inventores, criadores, ativistas. Todos unidos pela cooperação e colaboração internacional, mas com um trabalho local e comunitário.
Durante o encontro, realizei uma oficina de inovação cidadã e apresentei com detalhes a nossa metodologia LAB Relâmpago, que foi utilizada para realizar a primeira edição do LAB Tempestade ( ou LAB Storm, em inglês) com financiamento da GIG. A metodologia já foi parcialmente replicada na Filipinas.
Agora que nossa metodologia é conhecida em outros países, acho que vale lembrar um pouco como ela nasceu. É uma ferramenta que a gente criou coletivamente na Procomum depois de ver enchente, deslizamento, falta de luz e ver as populações mais margilazadas sofrendo o impacto das mudanças climáticas. A ideia: juntar os afetados como protagonistas e convidar os “especialistas” para colaborarem em ideias vindas da cidadania.
A metodologia ganhou o nome de LAB Relâmpago porque em dois dias, os participantes montam grupos, desenvolvem protótipos em um mês, testam e apresentam resultados.
É rápido como um relâmpago porque a pauta é urgente em nossa região. E foi replicado e adaptado por aí porque também é urgente em muitos outros lugare.s
Interessante rever que ela pode ser adaptada para outros locais e até para outras temáticas, como têm sido nos últimos anos, mas importante lembrar que nasceu da urgência das mudanças climáticas em nosso território e faz sentido para pessoas de tantos países e realidades diferentes.
Como é bom abrir o código do nosso fazer.
Criatividade do sul global como um comum
É claro que a experiência que vivi na GIG Week 2026 foi muito além do que mostrar nossas metodologias. Me encheu de esperança: se o software livre conseguiu escalar e transformar a economia digital a partir de comunidades distribuídas de voluntários, acredito que o mesmo pode acontercer com a inovação que nasce nos territórios, com poucos recursos e muita criatividade.
O sucesso do open source nos computadores mostrou que colaboração aberta, padrões compartilhados e governança transparente são capazes de gerar bens públicos globais. Agora, o desafio é aplicar essa mesma lógica à nossa inovação comunitária: criar uma cadeia de suprimentos de soluções abertas (supply chain de tecnologias sociais) onde metodologias, protótipos e saberes locais possam ser documentados, adaptados e replicados em diferentes contextos do Sul Global.
Para o futuro da GIG, consigo imaginar máquinas têxteis abertas da HILO Textiles, kits de sensoriamento ambiental, os jogos de cartas para resiliência comunitária, mutirões de conserto em regiões vulneráveis, redes de conexão de baixo custo, entre outras tecnologias, sendo replicadas por nós mesmos e outras comunidades.
Participar de um encontro da GIG é ver um repositório vivo nascer e crescer, onde cada projeto venha acompanhado não só do código ou do desenho técnico, mas também do método de facilitação, das lições aprendidas e das adaptações da história de cada um.
Obrigado, GIG por apostar em uma inovação criada a partir da colaboração e da cooperação internacional e na criatividade do Sul Global como um bem comum.
Nos próximos textos, vou escrever sobre minha participação no re:publika e no Open Hardware Summit 2026.






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