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Artigo: na Colaboradora, a roupa suja é de todo mundo

Atravessamentos: 12 artistas que não se conheciam. Diferentes corpos, disciplinas, expectativas, desejos, e tempos. Como um projeto de artes e comunidades pode contar com um percurso pedagógico que faça sentido para todos?

 

Por Victor Sousa

A Colaboradora – Artes e Comunidades selecionou por convocatória 12 artistas para desenvolver projetos e trocar conhecimentos entre si. Criada para ser uma escola livre e colaborativa, tem nos três primeiros meses um processo de formação mais intensivo. Este texto é uma tentativa de pensar e expor um pouco das dificuldades e desafios do primeiro mês de formação de um grupo de artistas.

O caminho da coordenação pedagógica parte de 4 eixos estruturantes: 1. desenvolvimento artístico, com foco no fortalecimento estético e na ampliação de repertório; 2. produção cultural, com foco na capacidade de gerenciamento de carreira e projetos; 3. vivências territoriais, com foco em aspectos sociais, culturais e em diálogos pluriculturais; 4. processos colaborativos, com foco no convívio em coletividades e no cuidado;

O desafio é grande, essencialmente porque a proposta não consiste somente em produzir para o circuito da arte, para a indústria, para o entretenimento, ou mesmo para as expectativas individuais. A ideia é gerar colaboração e vínculos com a comunidade. Gerar transformação, mudanças e atravessamentos. Uma proposta de arte para o/do comum.

Como então gerar um processo que faça sentido para todas? Um equilíbrio entre expectativas em um percurso que conte com espaço para a escuta, com abertura, horizontal, sem perder os quatro eixos de desenvolvimento propostos pelo projeto? Ou, nas palavras de nossa parceira Luciane Ramos “como estar com o outro sem se perder?”.

É comum que o/a artista da Baixada Santista não tenha tempo ou dinheiro. Que não tenha emprego. Falta para a passagem e para o almoço. São artistas do mundão. E quando falamos em tempo e dinheiro as contradições aparecem. Por um lado, o corpo e a mente cansam e/ou já chegam cansados. As formações e seus desdobramentos são importantes para a consolidação de um grupo e para as travessias individuais, mas não podem gerar indisposição contra os corpos (que já são tão violentados cotidianamente).

Não existem fórmulas prontas para respeitar os próprios limites e o limite do grupo. Existe conversa, escuta e intuição.

Por outro lado, vivemos em um território de oportunidades escassas para uma pessoa que deseja estudar ou desenvolver projetos artísticos. A Colaboradora é um projeto privilegiado em nossa região, a partir do qual a/o artista pode experienciar processos e ter acesso a conteúdos diversos, reunidos em um mesmo tempo/espaço.

Entre as expectativas e ansiedade de artistas com vontade de produzir, e a organização de um projeto que vise alguns resultados, são essenciais algumas regras e compromissos. Se temos um caminho a percorrer, vivências a fortalecer, transformações que desejamos, certos aprendizados vão ser facilitados. Alguns conteúdos de formação podem demorar para ser processados e outros podem nunca o ser. Os diferentes tempos não podem cercear trocas orgânicas e genuínas.

Tudo isso exige horas de conversas, até entendermos que na Colaboradora a roupa suja é de todo mundo. E que é preciso criar espaços para enfrentar juntos conversas difíceis. Foi então que o grupo optou por desenhar um espaço constante para trocas horizontais. A quarta-feira da feijoada para matar a fome, mas também para agregar temperos e sabores. Para a intimidade e a confidência da cozinha. Numa escola aberta e colaborativa, o caminho se faz ao caminhar.

 

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