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PESQUISA – Memórias apagadas na Terra da Liberdade

Apresentação

A teia que tece a cidade é mais que o trançar de ruas, alamedas, avenidas, praças e monumentos. É algo infinitamente maior que os arranha-céus que esquadrinham o espaço urbano e demarcam áreas de privilégios e privilegiados. Sob concretos, pedras, cimentos e asfalto há um passado nada perfeito, porém, repleto de histórias, lendas, heróis anônimos ou colocados no anonimato.

A cidade é feita, sobretudo, por suas gentes. Porém, são ´senhores do progresso` (do poder) que elegem seus heróis, seus marcos de referência e estabelecem formas que consideram ´ideais` de se viver no ambiente urbano ´perfeito` que desenham para poucos. O moderno, então, se constrói com a demolição daquilo e daqueles que são ´eleitos` como descartáveis e, por esse motivo, podem ser postos no esquecimento, sob os escombros. Essas são as ´outras` gentes, pessoas de narrativas e heroísmos forjados no embate cotidiano, sem direito a efemérides ou títulos de nobreza, porém, com muita força e resistência.

Em nome da racionalidade e da objetividade, a ideia do ´novo` desconstrói a memória e ergue um presente de segregação, exclusão e apagamento do passado. Não são ações neutras. Escolhe-se, planejadamente, o que se quer denominar ´cidade` e quem, de fato, a ela pertence.

Por esse motivo, o objetivo do nosso projeto não é apenas o de remover destroços para revelar o que há de belo e feio sob os escombros da história não contada. Queremos reavivar a memória, ressignificar os espaços urbanos, revelando, reconstituindo e construindo novas narrativas e práticas de convívio. Não há neutralidade na nossa intenção. Há razões múltiplas e subjetividades variadas para buscarmos compreender o quanto a população negra foi (e é) fundamental nos processos de formação da cidade de Santos e da Baixada Santista.

Progresso é possibilitar a convivência, a dignidade, a valorização dos corpos (nos espaços físicos e nas subjetividades). É preciso demolir a ideia de desenvolvimento que exclui e segrega. São séculos de tentativas de soterramento da história da população negra. Séculos de resistência para sacodir a poeira e “dar a volta por cima”.

Nossa tarefa não é fácil, sequer é obra com acabamento definido. Mas a história deve ser revisitada. Deve estar à vista. Viva na memória, nas narrativas, lendas, práticas e tecnologias, abrindo possibilidades diversas de combate ao racismo e à política do esquecimento.

Marcos Augusto Ferreira
Jornalista e pesquisador

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